
outorgada a honraria máxima que um professor pode ter e é com enorme alegria que
me coloco ao lado de vocês para poder transmitir meus últimos conselhos.
Há pelo menos 5 anos vocês adentraram os portões da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul, certamente com muitas expectativas e sonhos.
Muitos fatos, das mais variadas cores, atravessaram as vidas de vocês,
trouxeram sorrisos, lágrimas, apreensão, euforia, sofrimento e, espero,
felicidade.
A partir de agora, uma nova jornada se descortina diante dos olhos curiosos e
inquietos de uma Turma que desde a segunda aula me chamou a atenção pela
qualidade dos alunos. Uma turma em que as pessoas não se escondem e que o
questionamento é permanente. Poderia dizer: - Uma turma de DESACOMODADOS! Para
a qual os desafios existem com o único propósito de serem superados.
Mas já que falo de desafios, acredito – por mais contraditório que possa parecer –
que o maior desafio de nossas vidas é sermos fiéis ao que acreditamos, ao que
amamos, àquilo que nos faz vibrar e sentir que não somos apenas um punhado de
células em harmonia. O que nos comove, nos emociona, nos alegra e, sem dúvida
alguma, nos faz sofrer.
Quem sabe embriagado por Schopenhauer, hoje afirmo que sofrer é viver. Sofrer diante
dos dilemas, dos medos, das angústias e desafios que se colocam é sentir-se
vivo.
Sofrer diante da incerteza que é ser bacharel em direito no Brasil de hoje. No nosso primeiro dia de aula alertei-os sobre o abismo. Sobre o desaparecimento do chão que muitos de vocês irão sentir na medida em que forem se recuperando das festividades da formatura. Muitos viverão
ou já estão vivendo a angústia que, paradoxalmente, esse momento de prazer
inaugura. A sensação é de que o cadafalso se abriu e a queda é uma questão de
milésimos de segundo.
Mas sentir isso é viver. Eu também passei, senti e sobrevivi. É verdade que “alguns” fios de cabelo ficaram pelo caminho, que algumas cicatrizes até já se apagaram, mas passar por isso é
viver.
Pode parecer loucura afirmar isso num momento de festa: Sofrer também vale a pena, mas atenção! Desde que vocês não renunciem aquilo no
que acreditam.
A vida não pode ser a busca de um caminho mais fácil, mas sim, de objetivos desejados, queridos, por mais distantes e utópicos que possam parecer. Para desfrutar-se dela é necessário
manter acesa a sensação de sentir-se de fato vivo – RIR, CHORAR, CANTAR. É
negar a possibilidade de que o bege e o insosso invadam e tomem conta do
cotidiano de vocês.
E a opção de vida feita até aqui é a de viver o direito. Mas o que é isso?
Viver o direito é viver apaixonado por algo que sabemos que não irá mudar o mundo sozinho, mas que nos permite acreditar em uma perspectiva melhor. Se bem utilizado, e atento às outras áreas do conhecimento, o direito PODE SER FERRAMENTA EXTREMAMENTE IMPORTANTE naquele que considero a grande questão dessa segunda década do século XXI.
Não há como pensar no direito hoje e, fundamentalmente, na prestação jurisdicional, sem que os olhos do jurista estejam voltados para a INCLUSÃO SOCIAL. Inclusão que não se confunde com fazer benemerência com o dinheiro alheio, mas sim, que se dá com o repúdio a um direito
descompromissado, cego à tirania, às desigualdades, aos direitos humanos e,
fundamentalmente, que ignora o Outro.
A divisão e a exclusão devem ser combatidas no dia a dia dos operadores do direito. O problema é que a grande maioria dos nossos atores processuais ainda não percebeu isso e reage ao Outro
da mesma forma que as demais pessoas que integram a sua comunidade.
Devemos ser protagonistas de uma grande virada no rumo das relações humanas de nossa sociedade.
Se pretendemos um lugar melhor para se viver, mais sadio, mais seguro e mais ético, é necessário mudarmos o nosso comportamento!
Enquanto continuarmos a pensar em nossa sociedade de forma dividida o direito só será instrumento para maior desigualdade!
Enquanto não tivermos a coragem de olhar nos olhos daquele que nos amedronta simplesmente por ser diferente, aumentaremos o abismo existente entre nós!
E enquanto negarmos ao Outro direitos básicos, continuaremos a passar as noites acordados esperando que nossos filhos cheguem em casa seguros!
A escolha por viver o direito no nosso cotidiano é lembrar permanentemente DO DIREITO DO OUTRO. Seja ele mais desassistido ou mais abastado. É respeitar o alheio, é respeitar as pessoas, é resgatar o convívio cordial e amável de outros tempos. É preocupar-se com o outro.
Viver o direito é conviver permanentemente com a busca de uma sociedade mais humana, mais digna, mais ética e menos desigual. Uma sociedade mais justa.
Mas o caminho não é fácil e para exercer o direito, como deixei transparecer antes, é preciso amá-lo.
Caso vocês não o amem, sigam o rumo de vocês com sinceridade, mudem de caminho.
Nunca é tarde para isso, pelo contrário, na faixa etária da grande maioria de
vocês, digo que ainda é bem cedo. Se for preciso, façam-no, pois estarão
caminhando em outra direção, mas na busca da celebração da vida, que, para mim,
é a única razão de estarmos aqui. Celebrar a vida!
Eis o paradoxo, viver é sofrer, mas devemos celebrar a vida!
É preciso curti-la ao máximo, por mais difícil que pareça nesse mundo veloz.
Estamos cada vez mais oprimidos pela velocidade. Vivemos com pressa, exigimos pressa e
nos cobram pressa. Mesmo quando não há razão alguma para terminarmos uma tarefa
ou chegarmos mais cedo, o hábito pela rapidez nos impele a acelerarmos a fala,
os dedos, a mastigação e os nossos carros. Aceleramos, até, os beijos e o
carinho.
Essa impaciência somada ao peso do cotidiano, nos leva a uma cegueira que nos impede
de perceber aquilo que nos envolve e dá sentido à vida.
E o nosso dia prossegue sem que consigamos nos dar a possibilidade de parar,
respirar fundo, olhar para o lado e percebermos a beleza dos gestos, das
palavras, dos olhares e dos detalhes que nos cercam e que realmente preenchem a
nossa breve estada por essa dimensão.
Eu poderia falar de muitas coisas caras que me parecem esquecidas e que o momento
permitiria refletir, como a crise ética sem precedentes que permeia a sociedade
contemporânea, a crise do sistema prisional, ou o fato de que a droga é muito
mais um problema de saúde do que de direito, mas... como adiantei... TODOS NÓS
TEMOS PRESSA. Mas hoje a nossa pressa tem razão!
Finalmente, se eu tenho a pretensão de deixar uma última mensagem, guardem sempre, é a de
que nunca esqueçam quem vocês são! Olhem-se
no espelho e vejam sempre a mesma pessoa e a sombra daquelas que foram
importantes na construção da identidade de vocês. Não se esqueçam das boas
lições de vida que receberam. Das lições da infância. E, fundamentalmente,
nunca, jamais, renunciem às suas paixões e àquilo que amam, aquilo que dá em
vocês, simplesmente, vontade de, do nada, sorrir! Pois tal renúncia, de certa
forma, poderia ser perder um pouco da alegria de sofrer!
Vivam, sofram, amem, celebrem!
Porto Alegre, 20 de janeiro de 2012.


